sábado, 18 de julho de 2020

CONSERVAÇÃO E RESTAURO



Numa das viagens da Dra. Marinella Pigozzi(*) a Belém, ela me presenteou alguns livros, em agradecimento por tê-la acompanhado pela parte histórica da cidade. Entre eles estava “Ricerca umanistica e diagnóstica per il restauro” que ela coordenou.

Nesse livro, vários especialistas refletem, analisam e diagnosticam modos  de trabalho, que, apesar de ser para um caso concreto, é validíssimo aplica-lo ao “geral” contribuindo assim para o conhecimento e a salvação de bens históricos.

Diz ela que “ se uma cidade quer conhecer os próprios bens, tutelá-los, conserva-los e valoriza-los, deve vigia-los para que o patrimônio não venha cancelado ou danificado. Deve monitora-los com continuidade e sistematicamente, sem se permitir de relaxar a vigilância ”.  O que não acontece aqui entre nós. 

No livro em questão a Dra.  Rossana Gabrielli escreveu sobre o seu  “percurso de método” por ocasião de trabalhos de “conservação e  restauro” e fiquei pensando se isso acontece em Belém por ocasião de “trabalhos” em prédios e monumentos históricos, mesmo se não tombados.

Ela assinala a necessidade “Para uma correta salvaguarda do nosso patrimônio artístico, a tutela e o conhecimento dos bens culturais e histórico são atividades fundamentais  e estreitamente correlatas entre si.”

Como tutelar sem conhecer? Esse, de fato, deve ser o primeiro passo de uma série de intervenções necessárias para a conservação dos bens culturais. Quem trabalha com ‘patrimônios’ deve levar em consideração essa necessidade. 

Diz ela que: A análise dos materiais usados nas várias fases da vida de um bem, permitem obter informações seja sobre a vida histórico-arquitetônica, seja sobre o estado de conservação  dos materiais e da obra em geral. Essas analises devem, necessariamente, ser correlatas com o estudo histórico, documentário, arquivistico e artístico, única possibilidade para ter um conhecimento especifico, seja cronológico que estilístico afim de inserir o bem, no mais amplo sistema do nosso patrimônio cultural.

Reconhece ela que o momento mais traumático entre as atividades de conservação de um bem, o  restauro é aquele preponderante.  Nessa ocasião são inevitáveis ações destrutivas, porém,  tendo-se um profundo conhecimento sobre o bem, com as técnicas e o material adequado é possível limitar esse aspecto.

Insiste em dizer que: O conhecimento cientifico da  obra em estudo, se obtém com a interação de várias figuras profissionais  quais : o arquiteto, o restaurador, o histórico, o geólogo, o arqueólogo, o químico, o engenheiro e outras figuras necessárias...segundo o tipo de intervenção em ato...

Ela reconhece como essencial a arqueologia da arquitetura para definir um modus operandi e como coordenação da obra das várias figuras profissionais envolvidas no trabalho de conservação inclusive, da memória nacional.

Com esse sistema se evitaria ver nossos prédios e monumentos mudarem de cor e aspecto toda vez que os restauram, revitalizam e/ou os requalificam .

Certo que os países com uma longuíssima história, tendo acumulado um patrimônio histórico invejável   que atrai turistas e estudiosos do mundo inteiro, não podem se permitir tais modifcações. Paralelamente, de fato,  se desenvolveu pouco a pouco, uma vasta e diversificada especialização em materia de 'antiguidades', seja interna que externamente que dialogam entre si, trocando conhecimentos... e mantendo a memória o mais próximo aquela original.

A Grécia, a  Italia o Egito e poucos outros mais, estão entre os países mais procurados por turistas pela sua antiquissima história e as lembranças que tutelam. Para manter o fluxo de turistas  e as consequentes entradas econômicas necessárias a nação, devem manter em pé seus monumentos e prédios e atualizar continuamente os metodos de defesa desse patrimônio.

No Brasil a incidência do turismo histórico no balanço da nação por ser bem inferior,  não deve, porém,  ser motivo para uma menor atenção na defesa e salvaguarda do nosso patrimônio que vemos se esvair pela falta da devida vigilância e de comprometimento com a memória da nação.


(*)       Titular da cátedra de “ insegnamenti di Storia della critica d’arte e de Museologia” na  Universidade de Bolonha. Seus interesses oscilam entre a história da crítica, a museologia e a história da arte moderna. 



quinta-feira, 16 de julho de 2020

PARA DISCUTIR...


... sobre a demora dos orgãos públicos a tomarem providencias após denuncias, ou simples avisos de abusos com nosso patrimônio histórico.

Nestes dias em que a Pandemia nos obriga a estar em casa e sair so quando é extremamente necessário, tem gente, porém, que não respeitou e continuou “trabalhando”, mesmo se contra os interesses do nosso Patrimônio Histórico.

Num lugar mais civilizado que aqui, já existiria um PORTAL DA TRANSPARÊNCIA, para os atos relativos ao Patrimônio Histórico. Teríamos assim informações que nos são negadas, até quando as pedimos; sobre o que estão fazendo, fizeram ou autorizaram, nos últimos trinta dias.

Por que “trinta dias”? Porque deveria ser  o período de tempo util, para recebermos uma resposta, quando interpelamos um órgão público... O que nem sempre acontece.

Bem raramente acontece, também, que denuncias feitas no teu blog; na tua página do Face; no teu twitter; etc. etc. etc. tenham bom fim. O Ministério Público nos respondeu quando reclamamos que ignoravam nossas mails, que ”deveriam ir protocolar”, se queriamos ser ouvidos.

Francamente isso é um absurdo. Se todos os funcionários tem uma mails identificativa do próprio ente, porque nos devem obrigar a ir fazer fila para protocolar, gastando papel e mais tempo? Essas mails servem so para nos escreverem???

Na Italia, desde 1992, os funcionários públicos tem trinta dias para responder o que recebem por email e isso ainda vai para um setor onde registram o respeito do tempo, o que vai incidir numa gratificação... Assim se o problema denunciado não é de sua competência, ele transmite imediatamente para quem tem o dever de cuidar dele.... e recomeça a contagem dos trinta dias nas mãos desse outro funcionário.

No segundo semestre do ano passado notamos que a casa antiga, situado do lado do ex cinema Guarani, circundada por prédios do MPE, tinha sido derrubada e sido transformada em estacionamento...e começamos a denunciar o fato.  Estavam rodeados de advogados de todos os naipes e de Promotores e Procurados do MPE... até daqueles que cuidam do Patrimonio Histórico. Como é que ninguém viu e reclamou da retirada dos entulhos?


Em novembro de 2019 notamos que tinham embargado algo, mas o estacionamento continuou a funcionar e até colocou um placa enorme... http://laboratoriodemocraciaurbana.blogspot.com/2019/11/falta-de-cidadania.html

  
Estes dias,  descobrimos que alguém, que não devia usar o estacionamento, resolveu tomar providências e, segundo noticias do dia 06/07/2020 “A 2ª Promotoria de Justiça do Meio Ambiente, Patrimônio Cultural, Habitação e Urbanismo de Belém expediu Recomendação à Secretaria de Finanças do Município de Belém (Sefin) para que seja cassada a autorização de funcionamento do estacionamento de veículos, no imóvel situado na Rua João Diogo nº 62, em área tombada pelo patrimônio histórico, no bairro da Cidade Velha.”

A distancia de meses, quase um ano, perguntamos: e o outro embargo, para que serviu???

Como estes dias, também perguntamos: como é que ninguem notou a retirada de entulhos da Perfumaria PHEBO? Despois que só tinham os muros externos da construção, aparece uma denúncia anônima e a Prefeitura  embarga e paralisa a obra “até o seu devido licenciamento”...  

Se esta foto não é um fake temos outra pergunta a fazer: so sobraram alguns muros  externos, é isso que vão evitar que derrubem? Esse ato vai ter alguma sanção?

Na Padre Eutiquio tem outro predio, azulejado, que estão mexendo estes dias. Ano passado ja foi visitado pelo IPHAN. Quem sabe o que estão fazendo agora...


As informações a respeito de ações em prédios históricos, poderiam constar de um PORTAL DA TRANSPARÊNCIA, assim toda a cidadania  estaria avisada se foi ou não um abuso, e ninguem teria motivos para se aborrecer.


sexta-feira, 10 de julho de 2020

Os sons da madrugada em tempos de quarentena


Mais algumas observações do amigo Antonio Carlos, enquanto outros, muitos, aliás, dormem.

Os sons da madrugada em tempos de quarentena 
Antonio Carlos Lobo Soares*

A redução das atividades sociais no período de lockdown (6 a 25.05.2020) nos permitiu experimentar uma Belém mais silenciosa, com menos tráfego rodoviário. Nesta quarentena, integrando um estudo nacional sobre os efeitos da pandemia do COVID 19 no ambiente urbano, dediquei 15 minutos diários para contar os veículos e medir o som que produzem e chega ao meu apartamento. Constatei que de fato houve grande redução sonora e hoje escrevo sobre os efeitos desta redução na madrugada.

Na quadra onde resido, a madrugada é, em tempos normais, dominada pelos sons de bares de esquina. O fechamento destes permitiu perceber vozes na rua e nos apartamentos vizinhos, distantes mais de 70 metros.

Estudos ornitológicos indicam que os passarinhos estão iniciando o seu canto matinal de comunicação e acasalamento cada dia mais cedo, para evitar o ruído do tráfego que impera no ambiente. Por este motivo, fiquei acordado durante toda uma madrugada para checar se isto acontece nesta quarentena.

A experiência de passarinheiro na ótima adolescência na Av. J. Bonifácio me permitiu identificar os cantos do: Sabiá, Bem-te-vi, Cigarrinha do norte, Pipira, Suí, Tem-tem e Putiti-puruí entre os dominantes. O Sabiá iniciou a cantoria às 2h50 seguido pelo Bem-te-vi as 3h43, confirmando as expectativas. Seus sons intercalavam-se com os de um galo, instalado num quintal distante 130m de casa.

Trata-se de um galo especial, porque difunde um som do campo ou, como se diz no Pará, do interior, num raio de 150m no bairro da Cremação. Se o professor Takashi Yoshimura da Universidade de Nagoya não respondeu por que os galos cantam pela manhã, se pra marcar território ou reagir a estímulos, quem sou eu para identificar um padrão em seu comportamento. De todo modo, contei 23 cantorias em 14 minutos!

Na medida em que o sol nascente se aproxima, alguns cães ladram nos quintais e motocicletas buzinam nos cruzamentos, não importando se a população ainda dorme. Cães e motos registraram picos sonoros entre 70 e 80 dB, enquanto a legislação recomenda 50dB. Durma-se com esta discrepância!

Nesta época o sol aparece por volta das seis, hora em que o sino da Igreja dos Capuchinhos anuncia a chegada de um novo dia. Nele seguimos a nossa sina, enquanto passarinhos, cães e galos cantam indiferentes, mascarados pelos sons do tráfego e de máquinas em obras em nossa cidade, porque a vida no ambiente urbano é dinâmica e não pode parar, nem na quarentena.

* Arquiteto PhD, Museólogo e Artista Plástico,
Tecnologista Sênior do Museu Goeldi.

sábado, 4 de julho de 2020

E O PLANO DIRETOR, CADÊ?


 Temos uma preocupação, permanente: que fim vai levar o nosso patrimônio historico?
O Plano Diretor anterior é de 2008 e, durante sua duração, o IPHAN tombou a Cidade Velha e a Campina, mas nenhum ato municipal tomou conhecimento de tal fato.
Duas leis porém existiam e deveriam governar o uso do território municipal. De fato, a Lei nº 10.257/2001 do Estatuto das Cidades e a Lei Nº 8655/08 do Plano Diretor de Belém, estabelecem o Estudo do Impacto de Vizinhança – EIV, como instrumento de análise para subsidiar o licenciamento de empreendimentos ou atividades, públicas ou privadas, que na sua instalação ou operação possam causar impactos ao meio ambiente, infraestrutura básica, entorno ou à comunidade de forma geral, designados empreendimentos de impacto.
Os moradores, porém, continuavam a conviver com a passagem de carretas com mais de 4 pneus e peso superior a 4 ton. que trafegavam pela área tombada; as buzinas e os fogos de artifício barulhentos continuaram a explodir; atividades que eram autorizadassem sem previsão de estacionamento para os clientes; as cores das casas mudaram, e não somente no entorno... Enfim,  não se sentia a presença desse tombamento em atos concretos dos órgãos da administração pública que governam o território.

Esperávamos que o tombamento do IPHAN servisse para ajudar outros orgãos a terem mais atenção a quanto estabelecido pelas leis acima citadas mas não vimos isso acontecer. Nos iludimos que teríamos ajuda do Plano Diretor da cidade, mas ele concluiu sua vigência e nada vimos acontecer...E o novo até hoje não veio à luz do dia. Nesses dois anos de ausência de validade do PD, ainda vimos piorar muitas coisas.

Para os moradores da Cidade Velha, “empreendimentos de impacto” são também, e principalmente, aqueles que aumentam o transito de veículos pequenos e grandes, autorizados sem que seja previsto estacionamento para usuários e clientes; aqueles que produzem lixo, mais do que as casas de família e que ficam na rua esperando a passagem dos coletores; aqueles que produzem qualquer tipo de poluição que possa criar danos ao patrimônio, além de pessoas e animais...
Vimos no meio tempo, porém, mexerem na Casa das 11 Janelas e, apesar de reclamações e denúncias, o Estado ignorou do mesmo jeito, e as intervenções foram feitas, pois “não implicavam em mutilação, impedimento ou redução de visibilidade do bem tombado, e as cores propostas estão em harmonia com a leitura do mesmo”. Foi assim autorizada pelos órgãos de defesa e proteção do patrimônio pois ficou subentendido “que a proposta de intervenção não causará impacto negativo a este bem.”  Economicamente, porém, renderia muito mais... e continuou, porém, sem estacionamento, o que causa enorme impacto na área.
A maior parte das ações que vemos na área tombada vão contra o que está estabelecido na Constituição, e em leis consequentes de preservação e proteção do patrimônio. (https://laboratoriodemocraciaurbana.blogspot.com/2020/06/as-cores-do-nosso-patrimoni.html  e  http://laboratoriodemocraciaurbana.blogspot.com/2020/06/acoes-na-area-tombada.html )
Em ausência de PD (novo), nossa preocupação aumenta mais ainda, pois o “livre arbítrio” usado ultimamente pode aumentar o mau uso do território da área tombada. Quantas outras normas serão ignoradas até a inauguração das três praças que estão sendo “requalificadas” na Cidade Velha? Não conseguimos imaginar o que acontecerá depois que serão abertas ao público.
 Nós pedimos que:
- seja feita sinalização na área tombada desde a entrada do bairro...Será que farão?
- balizadores sejam colocados para evitar o uso seja de praças que das   calçadas de liós como estacionamento. Será que veremos isso acontecer?
 - as árvores nas praças, sejam controladas e retiradas aquelas  consideradas perigosas. Será que isso vai acontecer?
 - as carretas vão parar de passar pela área tombada??? 
A comunidade não é ouvida nem antes nem durante trabalhos feitos no território,  mesmo se no caso de patrimônio, a Constituição Federal, determine no seu art. 216, V, § 1º  que: "O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro(...)
O Plano Diretor não resolve todos os nossos problemas, mas já ajudaria muito se levasse em consideração a necessidade de defesa, proteção, salvaguarda e preservação da nossa memória histórica... o mais breve possivel.
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quinta-feira, 25 de junho de 2020

AÇÕES NA ÁREA TOMBADA



Correm dúvidas entre os cidadãos, e as vezes até entre os funcionários públicos, se ações de qualquer gênero em prédios da área tombada sejam sujeitas a autorização de algum órgão em particular.

Ultimamente estamos vendo o aumento da mudança de cores de casas na área tombada dos bairros da Cidade Velha e Campina. Essas modificações será que foram autorizadas pelos orgãos tombadores??? Alguem fiscalizou as obras em questão?

Quem não é do setor,  não pode nem imaginar que  até a tinta é diferente quando se fala de uma fachada muito antiga. Nesse caso, por exemplo,  a tinta a ser usada é a  base d’agua para que  a parede possa respirar, senão o reboco cai.

É claro que ninguém é contra o embelezamento dos prédios da área tombada, mas isso deve ser feito  em base as normas vigentes. Por essa motivo é que existem pessoas especializadas em vários órgãos públicos para avaliarem o que se pode fazer ou não, em um imóvel tombado.

Tratando-se de área tombada, achamos útil lembrar que existem  normas previstas pelos órgãos que  seguem o patrimônio histórico e não somente – IPHAN, SECULT  e FUMBEL –, os quais existem para orientar, auxiliar, fiscalizar, promover e ajudar na defesa da nossa memória histórica.

Aproveitamos para lembrar também a norma superior do Iphan: Decreto-Lei n 25 de 1937, cujos artigos 17 e 18 esclarecem algumas dúvidas a respeito do que se pode ou não fazer em tal área.

 Art. 17. As coisas tombadas não poderão, em caso nenhum ser destruidas, demolidas ou mutiladas, nem, sem prévia autorização especial do Serviço do Patrimônio Histórico e Artistico Nacional, ser reparadas, pintadas ou restauradas, sob pena de multa de cincoenta por cento do dano causado.
Parágrafo único. Tratando-se de bens pertencentes á União, aos Estados ou aos municípios, a autoridade responsável pela infração do presente artigo incorrerá pessoalmente na multa.

Art. 18. Sem prévia autorização do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, não se poderá, na vizinhança da coisa tombada, fazer construção que lhe impeça ou reduza a visibílidade, nem nela colocar anúncios ou cartazes, sob pena de ser mandada destruir a obra ou retirar o objéto, impondo-se nêste caso a multa de cincoenta por cento do valor do mesmo objéto.

Como se pode notar, até multa é prevista para quem não respeita a  norma, que, com o tempo deve ter sido atualizada. Outras  normas sobre a defesa do  nosso patrimônio histórico se encontram na Constituição Federal, além daquelas contidas em leis e decretos estaduais e municipais. 

Se alguém quiser aprofundar a norma nacional, aqui temos mais algumas indicações:
http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/DEL%2025-1937?OpenDocument


domingo, 21 de junho de 2020

AS CORES DO NOSSO PATRIMONIO


Nestes ultimos meses, várias são as obras que vemos na área tombada da Cidade Velha e Campina. As cores a serem salvaguardadas, assim como os prédios são os problemas principais para quem conhece as  normas.

O IPHAN, o DPHAC e a FUMBEL, tem entre suas competências a proteção e a promoção do nosso patrimônio cultural. Em alguns casos, não somente o Histórico. Todas três instituições são subordinadas ao que prevê e determina a Constituição  Federal relativamente ao Patrimônio Cultural,Histórico e Artístico. Em pelo menos dois artigos, fica bem claro o tratamento recomendado a esse argumento.
Temos de fato o Art. 30 da Constituição Federal, onde fica estabelecido que Compete aos Municípios:
IX – promover a proteção do patrimônio histórico–cultural local, observada a legislação e a ação fiscalizadora federal e estadual."

Mais adiante, sempre na Constituição Federal, encontramos o art. 216, V, § 1º onde lemos que: "O Poder Público, com a colaboração da comunidade, promoverá e protegerá o patrimônio cultural brasileiro(...)"

Dois verbos são fundamentais nessas frases: promover e proteger. Outros determinações importantes são: a observação das leis federais e estaduais, e a “colaboração da comunidade”. Esse é o arcabouço principal onde se baseiam as competências dos órgãos acima citados.

A nivel estadual,  ou seja, no Pará temos a Lei n. 5 629 de 20 de dezembro de 1990, que dispõe sobre Preservação e Proteção do Patrimônio Histórico, Artístico, Natural e Cultural  do Estado do Pará. Notamos que no seu  art. 6  estabelece que o "poder público promoverá, garantirá, incentivará a preservação, restauração conservação, proteção, tombamento, fiscalização ou execução de obras ou serviços e a valorização do patrimônio cultural paraense, preferencialmente com a participação da comunidade".

Com esta lei são acrescentados outros verbos aos acima citados na Constituição Federal, para reforçar a competência:  garantir, incentivar a preservação, restauração,  conservação... além de prever a sua valorização, “preferencialmente com a participação da comunidade".

Resumindo, aqueles três órgãos devem preservar nossa memória protegendo o patrimônio cultural. Assim sendo, a mudança das cores de prédios e monumentos tombados, infringe as determinações  previstas nas leis acima mencionadas.

Muitas vezes recorrem a prospecções para chegar o mais perto possível do que era  originalmente, por exemplo, a cor de paredes ou muros, principalmente os externos. Nem sempre conseguindo.

Neste caso  vemos usarem cores totalmente diferente do que temos em memória coletiva. Ou seja, a lembrança da cor usada naquela edificação, no momento, por exemplo, do tombamento feito pelo IPHAN em 2012, não é levada em consideração.
Pelo que se lê nas leis, a preservação da memória, deve ser feita, no caso de não ter sido possivel identificar a cor original, após os serviços de  prospecção,  reutilizando a cor que estávamos acostumados a ver  por ocasião da data do tombamento.

Perguntar aos cidadãos se estão de acordo com mudança de cores, não parece ser  o procedimento mais adequado a ser seguido, considerando que a lei estabelece, de modo inequivoco a salvaguarda daquilo que temos na lembrança. Com o cidadão se deve discutir a proposta do novo Plano Diretor, por exemplo, não aquilo que a lei ja fala claro.

Preservar e conservar são os verbos que determinam a nossa memória em caso da prospecção não oferecer resultados seguros. Não está escrito em nenhuma lei que se deva criar uma “nova memória”, por ocasião de algum restauro, revitalização ou mesmo requalificação de algo ‘tombado’, ou situado em área tombada.

Aliás,  o uso das palavras é algo, também, que deve ser levado em consideração. "Revitalização e requalificação” são palavras não usadas em nenhuma lei que fale de patrimônio e o uso delas agora, não deve permitir abusos ou interpretações absurdas. As palavras tem um valor e um sentido concreto.

Seria oportuno que em todas as faculdades existissem matérias relativas ao Direito. Todos poderiam aprender que, em Democracia vigem leis que asseguram direitos e deveres; que existe uma hierarquia entre as leis, dependendo da sua proveniência;  que um decreto de qualquer instância,  não pode modificar uma lei de qualquer origem; que a ética é algo regido, também, por leis. 

Estaríamos em melhores mãos, em todos os sentidos, se conhecessemos e dessemos o  devido sentido as palavras e respeitassemos as leis. A  nossa memória não seria modificada com tanta rapidez.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

LEMBRANÇAS QUE A PANDEMIA PROVOCA


O que fazer depois de tanto tempo trancados em casa senão recordar o passado: os aniversários, os passeios, as férias, S. João... Vendo umas fotos do Mosqueiro me veio tudo a tona e lembrei que... O  meu primeiro Natal, foi na casa do meu pai na praia do Farol. Eu tinha quinze dias de nascida mais ou menos. Lógico que não lembro de nada e hoje nem a casa tem mais.

Lembro em vez quando, ja nos fins dis anos 40 chegavamos de vapor e desciamos correndo o trapiche para pegar lugar num dos dois onibus ali existentens  nos anos 50. A ponte ainda não existia, assim nem carros por ali chegavam com muita facilidade.











Antes dos citados onibus velhos tinham os bondes puxados por cavalos...para levar  as familias  para suas casas nas praias. Não cheguei a vê-los.














Lembro também  que a orla do Mosqueiro onde estavam as casas mais bonitas, eram as praias do Farol e do Chapéu Virado. Um hotel em cada praia, rodeados pelas casas dos “bem de Belém”. 

Nascia o Hotel do Farol, cujo farol,  nunca cheguei a ver.
























Anos 60 a igrejinha do Chapeu Virado.


No fim dos anos 40 meu tio Aguiar comprou uma casa na praia do Chapéu Virado, feita por um engenheiro austríaco que la vivia. Lindissima e original por ter  usado coisas nossas, incluindo troncos para os bancos da sala de jantar. Cá e acola, alguns azulejos enfeitavam, como detalhes,  ângulos dos quartos. Nas paredes, pratos com cenas de caçadas ou com cães e cavalos de  porcelana inglesa.
A casa em questão foi modificada nos anos 70 e hoje está assim deturpada...
Da sala de jantar um janelão se abria para o quintal com todas as frutas nossas: do abacate, mamão, cupuaçu...ao Pau Brasil. Derrubaram muitas arvores e acrescentaram uma piscina. A mesa era enorme, e quando chegavam as férias, se enchia de grandes e pequenos.

Na casa das minhas lembranças cresci, praticamente, e lembro o trampolim de madeira que tinha na praia do Chapéu Virado, a altura do hotel que  ficava na pracinha onde tinha uma miniatura de igreja. Lembro quando o reconstruíram de ferro, no inicio dos anos 50. Morriamos de vontade de pular daquele trampolim quando a maré estava cheia, mas tínhamos receio que pudesse ser usado so pelos clientes do hotel.































Na praia do Chapeu Virado, em frente a nossa casa tinha uma mangueira e do lado direito umas palmeiras que o vento dobrou. Com o tempo, uma por uma foi caindo.
De longe víamos a ilha dos Amores, onde so grandinha, com uns 15 anos cheguei a andar por aquelas pedras pontiagudas que a formavam. Tinha pavor que a maré enchesse e eu ficasse presa la. Olhava entorno e imaginava onde poderia me encarapitar se isso acontecesse, e voltava logo correndo dali.

Sabiamos que do lado direito do trapiche ficava  a Fabrica Bitar de onde pensavamos saiam as bolas de "borracha" que compravamos sempre para brincar na água.

Toda a orla era cheia de mangueiras frondosas onde os ‘moleques’ enrolavam, entre uma e outra, o fio com cerol para usar nos papagaios, depois do almoço. Da janela do banheiro dos meu tios que ficava numa ala da casa em cima da garagem, olhava o trabalho deles. Queria dizer eu ia ter briga na praia no dia seguinte.

O céu se enchia de papagaios, rabiolas e afins e grandes e pequenos torciam para que fossem ‘cortados’, e assim podiam correr atrás. De repente uma correria começava e, indistintamente, homens de todas as idades começavam a busca do troféu: o papagaio cortado. Saia briga, muitas vezes e o papagaio acabava rasgado.

No verão, apenas chegavam as férias íamos para la e ainda chegavamos a ver os ‘boi-bumbas e pássaros’, que meu tio trazia para dançar em casa. Convidava os vizinhos e assim  a casa ficava superlotada para o espetáculo. Comida da época, a granel. Gingibirra a vontade e fogos, estrelinhas, estalinhos, pega moleque e outros  tipos eram distribuídos entre as crianças.


Tempo de férias e S.João  estão chegando e nós em casa a relembrar a igrejinha do Chapeu Virado, o mercado, os chalés  e as praias do Mosqueiro que ouviamos falar nossa infancia e juventude:  Bispo, Ariramba, Murubira, Grande...












Fotos da CIVVIVA, da internet e do Blog do Alcir...Rodrigues.