sábado, 10 de outubro de 2026

NASCIMENTO DO CÍRIO DE NAZARÉ EM BOLONHA


Um dia, eu estava reunida com os padres Don Stefano Ottani e Don Alberto Gritti, na Igreja de São Bartolomeu e São Giacomo, no centro de Bolonha, na Itália. Estávamos discutindo a possibilidade de organizar uma exposição sobre o arquiteto e pintor Antonio Landi.

O professor Carmelo Mancini havia retornado de Belém, onde ministrara um curso de aquarela. Foi então que decidimos organizar uma exposição dos quadros das igrejas construidas por Landi e fotografados durante o período em que Mancini estava em Belém.

A exposição, intitulada  Landi, uno sguardo da lontano (Landi, um olhar de longe), seria realizada de 8 a 17 de outubro, na Sala dei Teatini, situada na Strada Maggiore, em Bolonha, bem próxima às Duas Torres, símbolos da cidade.

Estávamos conversando sobre a exposição quando, justamente naquele momento, o professor Mancini chegou e me entregou um pacote. Interrompemos a reunião e, tomada pela curiosidade, comecei a abri-lo. Para surpresa e espanto de todos, havia dentro dele uma imagem de madeira de Nossa Senhora de Nazaré.

O professor explicou que a imagem havia sido esculpida artesanalmente por Manoel Amaral Lopes, na cidade de Curralinho, na Ilha de Marajó. Uma segunda imagem, igual àquela, havia ficado na Igreja de Nazaré, em Belém. Em uma plaqueta de metal, lia-se o nome dos doadores: Ronaldo Hun e família, proprietários da revista Círio, de Belém.

Receber aquela doação no dia 16 de setembro, enquanto conversávamos sobre Landi, foi emocionante. Participavam da reunião Mario Ventimiglia, vice-presidente da Associação Cultural M.A.M.B.O., além de outros amigos.

A surpresa e a alegria de Don Stefano eram evidentes. Ao tocar a imagem, ele a observou atentamente, examinando cada detalhe. A escultura nos remetia imediatamente à nossa terra. Tanto a pele da Virgem Maria quanto a da criança que carregava nos braços eram morenas, e ambas tinham cabelos pretos e ondulados.

Visivelmente feliz, Don Stefano exclamou:

— É minha!

Em seguida, dirigiu-se à nave principal da igreja, procurando um lugar digno para colocar a imagem. Voltou até nós radiante, posou para algumas fotografias e tornou a caminhar pelo interior da igreja. Minutos depois, retornou ainda mais feliz: havia encontrado o lugar ideal para abrigar Nossa Senhora durante todo o ano.

Informei aos presentes que a imagem havia sido benzida pelo arcebispo de Belém, Dom Vicente Zico, no dia 16 de agosto de 2004. Aproveitei a ocasião para perguntar se conheciam a história daquela devoção. A resposta foi negativa.

Então, contei tudo o que sabia, inclusive que a festa de Nossa Senhora de Nazaré era celebrada em Belém no segundo domingo de outubro, com uma procissão conhecida como Círio — palavra que, em italiano, significa “vela”.

Olhei para Don Stefano e sugeri:

— Bem que poderíamos fazer um Círio aqui também...

Ele sorriu, refletiu por um instante e respondeu:

— Você tem razão!

Tínhamos poucos dias para organizar tudo, pois já estávamos na segunda quinzena de setembro. Mesmo assim, decidimos realizar a procissão no segundo domingo de outubro. Ao mesmo tempo, continuamos os preparativos para a exposição sobre Landi. Apesar do pouco tempo disponível, tudo deu certo.

Três padres que haviam vivido vários anos na região de Belém ajudaram na organização da procissão e da missa. Enquanto isso, os quadros da exposição eram apresentados na Sala dei Teatini. O cônsul brasileiro em Milão compareceu acompanhado de vários funcionários e chegou até mesmo a adquirir um dos quadros expostos.

Na procissão, éramos apenas quatro paraenses, cantando o hino do Círio e transbordando de felicidade. A missa, por sua vez, foi cantada por um grupo de italianos que conheciam a nossa língua e as nossas músicas.

Assim, em meio a uma reunião sobre arte, a chegada inesperada de uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré despertou uma lembrança profunda de nossa terra e fez nascer a ideia de celebrar o Círio em Bolonha. 

O que começou como uma surpresa transformou-se em um momento de fé, encontro e partilha cultural, aproximando o Pará e a Itália por meio da devoção a Nossa Senhora de Nazaré.

Asquatro brasileiras estãonesta foto.
Uma carrega o andor...
















O altar da Nazica