Um dia,
eu estava reunida com os padres Don Stefano Ottani e Don Alberto Gritti, na
Igreja de São Bartolomeu e São Giacomo, no centro de Bolonha, na Itália.
Estávamos discutindo a possibilidade de organizar uma exposição sobre o
arquiteto e pintor Antonio Landi.
O
professor Carmelo Mancini havia retornado de Belém, onde ministrara um curso de
aquarela. Foi então que decidimos organizar uma exposição dos quadros das
igrejas construidas por Landi e fotografados durante o período em que Mancini estava em Belém.
A
exposição, intitulada Landi, uno sguardo da lontano (Landi, um olhar
de longe), seria realizada de 8 a 17 de outubro, na Sala dei Teatini,
situada na Strada Maggiore, em Bolonha, bem próxima às Duas Torres, símbolos da
cidade.
Estávamos
conversando sobre a exposição quando, justamente naquele momento, o professor
Mancini chegou e me entregou um pacote. Interrompemos a reunião e, tomada pela
curiosidade, comecei a abri-lo. Para surpresa e espanto de todos, havia dentro
dele uma imagem de madeira de Nossa Senhora de Nazaré.
O professor
explicou que a imagem havia sido esculpida artesanalmente por Manoel Amaral
Lopes, na cidade de Curralinho, na Ilha de Marajó. Uma segunda imagem, igual
àquela, havia ficado na Igreja de Nazaré, em Belém. Em uma plaqueta de metal,
lia-se o nome dos doadores: Ronaldo Hun e família, proprietários da revista Círio,
de Belém.
Receber
aquela doação no dia 16 de setembro, enquanto conversávamos sobre Landi, foi
emocionante. Participavam da reunião Mario Ventimiglia, vice-presidente da
Associação Cultural M.A.M.B.O., além de outros amigos.
A
surpresa e a alegria de Don Stefano eram evidentes. Ao tocar a imagem, ele a
observou atentamente, examinando cada detalhe. A escultura nos remetia
imediatamente à nossa terra. Tanto a pele da Virgem Maria quanto a da criança
que carregava nos braços eram morenas, e ambas tinham cabelos pretos e
ondulados.
Visivelmente
feliz, Don Stefano exclamou:
— É
minha!
Em
seguida, dirigiu-se à nave principal da igreja, procurando um lugar digno para
colocar a imagem. Voltou até nós radiante, posou para algumas fotografias e
tornou a caminhar pelo interior da igreja. Minutos depois, retornou ainda mais
feliz: havia encontrado o lugar ideal para abrigar Nossa Senhora durante todo o
ano.
Informei
aos presentes que a imagem havia sido benzida pelo arcebispo de Belém, Dom
Vicente Zico, no dia 16 de agosto de 2004. Aproveitei a ocasião para perguntar
se conheciam a história daquela devoção. A resposta foi negativa.
Então,
contei tudo o que sabia, inclusive que a festa de Nossa Senhora de Nazaré era
celebrada em Belém no segundo domingo de outubro, com uma procissão conhecida
como Círio — palavra que, em italiano, significa “vela”.
Olhei
para Don Stefano e sugeri:
— Bem que
poderíamos fazer um Círio aqui também...
Ele
sorriu, refletiu por um instante e respondeu:
— Você
tem razão!
Tínhamos
poucos dias para organizar tudo, pois já estávamos na segunda quinzena de
setembro. Mesmo assim, decidimos realizar a procissão no segundo domingo de
outubro. Ao mesmo tempo, continuamos os preparativos para a exposição sobre
Landi. Apesar do pouco tempo disponível, tudo deu certo.
Três
padres que haviam vivido vários anos na região de Belém ajudaram na organização
da procissão e da missa. Enquanto isso, os quadros da exposição eram
apresentados na Sala dei Teatini. O cônsul brasileiro em Milão compareceu
acompanhado de vários funcionários e chegou até mesmo a adquirir um dos quadros
expostos.
Na
procissão, éramos apenas quatro paraenses, cantando o hino do Círio e
transbordando de felicidade. A missa, por sua vez, foi cantada por um grupo de
italianos que conheciam a nossa língua e as nossas músicas.
Assim, em meio a uma reunião sobre arte, a chegada inesperada de uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré despertou uma lembrança profunda de nossa terra e fez nascer a ideia de celebrar o Círio em Bolonha.
O que começou como uma surpresa
transformou-se em um momento de fé, encontro e partilha cultural, aproximando o
Pará e a Itália por meio da devoção a Nossa Senhora de Nazaré.
Asquatro brasileiras estãonesta foto.


