Um amigo brasileiro me mandou isso la de Portugal...
Encontrem alguma similaridade com o Brasil
Encontrem alguma similaridade com o Brasil.
António Manuel Palhinha - autor
PORTUGAL — Um país onde o povo vive distraído com futebol e festivais de verão.
Portugal tornou-se um curioso laboratório da distracção organizada. Há muito que deixou de ser um país governado pela razão para se converter numa vasta plateia onde os espectadores, entre um golo ao cair da tarde e um concerto ao cair da noite, aplaudem a própria decadência com uma alegria que faria corar os antigos bufões das cortes medievais.
Nunca houve tantos motivos para pensar; nunca se pensou tão pouco.
Enquanto o custo de vida sobe como uma hera venenosa pelas paredes das famílias, enquanto os jovens fazem das malas a mais sólida política de emprego nacional, enquanto os idosos sobrevivem com pensões que ofendem a dignidade humana, eis que a multidão, disciplinadamente anestesiada, discute com fervor sacerdotal se o novo avançado merece ou não vestir determinada camisola, ou se o cartaz de um festival justifica o preço obsceno do bilhete.
É uma nação admiravelmente domesticada.
Os romanos ofereciam pão e circo. Os modernos descobriram que o pão pode escassear, desde que o circo nunca termine. Hoje basta um campeonato, uma transferência milionária, um festival de verão, uma polémica televisiva ou um escândalo cuidadosamente embalado pelas redes sociais para que o cidadão esqueça que continua a pagar impostos escandinavos para receber serviços públicos que, tantas vezes, parecem inspirados nos países mais pobres do planeta.
O génio da manipulação não consiste em obrigar um povo a calar-se. Consiste em convencê-lo de que gritar por um penálti é mais urgente do que exigir justiça, competência e visão para o seu próprio país.
As praças onde outrora se discutiam ideias foram substituídas por bancadas onde se discutem árbitros.
Os cafés onde se falava de literatura, filosofia e política transformaram-se em extensões improvisadas dos programas desportivos, onde cada cliente acredita possuir mais sabedoria táctica do que qualquer treinador, embora desconheça quase tudo sobre o funcionamento do Estado que lhe governa a vida.
Há qualquer coisa de profundamente trágico nesta alegre superficialidade.
O português aprendeu a indignar-se durante noventa minutos. Depois regressa serenamente à sua resignação quotidiana, como um actor que, terminada a peça, aceita novamente o papel secundário que lhe foi atribuído pela realidade.
Poucos povos possuem uma capacidade tão extraordinária para transformar a indignação em entretenimento.
Reclamamos do preço da gasolina enquanto esperamos pacientemente horas para entrar num recinto onde gastaremos, numa única noite, o equivalente a vários dias de trabalho. Queixamo-nos da falta de dinheiro enquanto adquirimos prestações para telemóveis que substituímos antes de conhecer todas as suas funções. Protestamos contra a corrupção, mas elegemos repetidamente os mesmos protagonistas, como quem muda apenas o cenário de uma velha comédia cujo enredo já conhece de memória.
E depois admiramo-nos.
Admiramo-nos que a saúde definhe, que a justiça se arraste, que a educação perca autoridade, que a cultura sobreviva de esmolas institucionais e que a mediocridade ocupe, sem oposição, os lugares outrora reservados ao mérito.
Mas como poderia ser diferente?
Um povo permanentemente entretido dificilmente permanece permanentemente atento.
A atenção é o primeiro acto da liberdade. A distracção contínua é a primeira forma de servidão.
Os festivais sucedem-se como procissões modernas onde os novos santos se chamam celebridades, influenciadores e ídolos instantâneos. A música termina, as luzes apagam-se, o lixo permanece, e também permanece a pobreza estrutural, a desertificação do interior, a fuga dos mais qualificados, a burocracia sufocante e a lenta erosão da esperança.
Contudo, chega o próximo verão.
E com ele regressa a promessa de felicidade comprada em pulseiras coloridas, copos reutilizáveis e fotografias destinadas a convencer o mundo de uma alegria que, muitas vezes, não sobrevive ao silêncio da manhã seguinte.
Entretanto, os verdadeiros problemas continuam sentados à porta de casa, pacientes como credores antigos, aguardando apenas que termine a música.
Talvez o maior triunfo dos nossos tempos não seja governar um povo.
É conseguir que esse povo confunda entretenimento com felicidade, consumo com realização, popularidade com grandeza e ruído com liberdade.
Quando isso acontece, já não são necessárias correntes.
Os próprios acorrentados passam a defendê-las. A querer utilizá-las com vaidade.
E então Portugal deixa de ser apenas um território.
Transforma-se numa magnífica metáfora de uma civilização que aprendeu a celebrar incessantemente... precisamente no momento em que deveria começar, finalmente, a pensar.
— António Manuel Palhinha
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